quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Até

Bom dia, flor do dia, bom dia.
Devo realmente ter mudado bastante nesses tempos, odeio essa expressão desde que ainda estava na escola, quando escutei pela primeira vez e estou aqui te iniciando essa carta com ela. Não pelo que sinto pela expressão, somente saiu quando comecei a escrever.
Não pude me despedir. Na verdade, eu podia ter te acordado com um beijo, mas não ia ser tão fácil. Espero que o café da manhã junto com a carta e as flores que deixei na cabeceira da cama sirvam como desculpas pela falta de educação em deixar tua casa pé ante pé, silenciosamente para evitar que você acordasse.
Acho que quando você ler, já devo ter embarcado. É minha lua de mel, outra expressão que eu sempre detestei, mas acho que é a única que existe.
O tempo que eu vou ficar ainda não sei. Ela comprou as passagens de surpresa. O tempo que passarei distante é quase tão secreto quanto o tempo que vamos demorar pra nos vermos novamente, e eu sei que nos veremos, apesar dos pesares. O peso dessa segunda toalha estendida no teu banheiro e dessa aliança no meu dedo é demasiado grande. Simplesmente, não sei o que fazer.
Não sei o que dizer da noite, acho que nem escrevo pra falar nada. Só posso dizer que tive saudades e que se pudesse, não saia do teu lado. Mas o que podemos fazer? vida engraçada essa a nossa, sempre nos separando.
Vou indo pela rua ouvindo aquele cd de tom Zé que eu descobri. Tem uma música tão melancólica que é exatamente do jeito que eu gosto, você sabe que sempre tive essas tendências pra gostar do que aperta as mágoas. Ainda te cantarei. Também lembrarei de ti quando ouvir.
"Mas eu te espero
na porta das manhãs porque
o grito dos teus olhos
é mais e mais e mais
e depois que você partiu
o mel da vida apodreceu na minha boca"
Vou cantando baixo e deixando de ouvir progressivamente pra não cantar alto num lapso, ela não pode ouvir. Ou talvez possa, não vai saber o significado mesmo.
Pois é, você me fará falta como vem fazendo tem tanto tempo. Não deixo meus números, não posso deixar muitos rastros, até pra te proteger, nada pode ter a minha letra ou qualquer coisa que remeta a mim, não te quero complicar em nada, basta o que nos complicamos internamente sozinhas. Sozinhas, não, uma acompanhada da outra. Mas quando voltar, você vai saber secretamente de alguma forma. E vai saber onde me procurar, se quiser me encontrar.
Essa vida estranha sempre nos separa, mas nunca deixa que a gente se perca de uma vez. Se é bom ou ruim, ainda não descobri.
Se as traímos? não, não. Em algum lugar do universo, seremos perdoadas. E não esqueça: um dia essa aliança vai ter sua pedra preferida. E no quarto, o travesseiro sobre a cama vai ser o meu. Nem que seja quando velhas, ainda dormiremos juntas, em paz e longe disso tudo.
Se puder, se lembre de mim às vezes.
E quando lembrar, saia na rua com aquele perfume doce que eu gostava e que você comprou pra usar quando fosse me ver.
Até um dia.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Regresso

A conta-gotas.

Era assim que os dias costumavam passar logo que você se foi. Dizendo que me amava ainda, é verdade, mas que não tinha coragem de deixar a outra, mas que voltaria. Que não sabia o que aconteceria entre nós, mas que voltaria.

Não eram tantos meses, não era tanto tempo, mas os dias se passavam insuportáveis. Parecia que alguém depositava gotas de 24 horas numa jarra de fundo escuro e distante. E eu mesmo assim marcava dia a dia num calendário mental quando finalmente ia chegar o término do meu tormento emocional que amigo querido nenhum agüentava mais ouvir. Eu achava que sua chegada resolveria todos os problemas. Fantasiava que você voltaria dizendo que sentiu saudade, que foram dias tortuosos, que me pediria desculpas e dormiria comigo alisando meus cabelos. Mas sabia que era fantasia.

Com o tempo, os dias deixaram de ter gotas tão longas. Uma hora ou outra eu ia precisar voltar a viver. Claro, na maior parte dos dias eu olhava o teto do meu quarto ao acordar (via os seus presentes espalhados pelas prateleiras e fingia que eles não me davam saudade mais) e ficava me perguntando qual seria o próximo passo a dar, porque minha vontade de verdade era de não abrir os olhos novamente. Nem tinha vontade de comer, de atender as ligações, de sair de dentro do quarto, na verdade.

Num súbito, fui raptada por queridos e levada praquela praia que nunca fomos. Viajei como nunca viajamos. Por que você sempre se recusava?

Gostava de entrar no mar fundo. Era agitado, eu sempre lembrava de mamãe dizendo que era perigoso. Mamãe sempre foi neurótica.

O segredo é que eu gostava de entrar só no mar até o fundo e ficar esperando as ondas quebrarem sobre mim. Elas quebravam uma a uma na minha cabeça e eu sentia a corrente forte me arrastando. Eu ficava lá, impotente e sem forças até que a onda tivesse vontade de me cuspir fora dela na areia. Sentia o corpo todo girando e indo em direções diferentes, os braços, as pernas, os cabelos. Devia ser assustador, mas era confortável. Nos segundos que eu tentava não morrer afogada, não tinha tempo de me concentrar em você.

Vai passar, vai passar, passou (mentira). Mas vamos em frente. Eu convivendo com a realidade da sua nova felicidade e do seu provável e progressivo desamor por mim. Convivendo com o fato de que talvez o compromisso assumido por você num lapso tivesse se transformado finalmente em amor por ela. Me dando todo o trabalho de acreditar nisso. Fazendo sua ausência completa doer e me torturar pra que eu te detestasse de uma vez.

O calendário passava mais devagar agora que eu tinha resolvido que você a amava e que eu já não era mais nada além duma lembrança vaga.

Me encontrei numa cama diferente quando menos percebi. Deitada enrolada em uma beira somente do lençol como eu só tinha liberdade pra fazer com você. Você sabe que eu não me atrevia a dormir sem roupas em lugar algum que não fosse do seu lado. E não dividia o sono com ninguém que não fosse você.

Braços brancos me fazendo o café da manhã enquanto eu despertava entre beijos e afagos. Nós nunca cozinhamos uma pra outra, não que eu me lembre. Mas me dá saudade de quando jantávamos juntas escondidas do mundo, sempre o mesmo prato e não enjoávamos nunca. Ou até enjoávamos, mas era nosso, éramos nós.

Você foi clareando na cabeça enquanto aqueles cachos me beijavam o rosto, talvez até tenha esquecido sua voz.

Então, deitada de bruços na cama, enrolada numa beira do lençol, o telefone tocou o aviso de uma mensagem. Ínfima. Minúscula. Somente dois caracteres enviados no dia da sua volta. Ninguém que lesse saberia do significado daquilo, era pequeno e besta. Qualquer pessoa enviaria aquilo despretensiosamente. De um número já apagado do aparelho há tempos, que talvez eu fingisse que havia sido também apagado da memória. Mas a seqüência numérica na tela não me deixou nem fingir que era uma amiga ou que era engano. Torci pra que fosse isso até o último instante, mas era você. E na minha frente, era o café da manhã. E dentro de mim, uma explosão desesperadora.

Achei, durante meses, que a chegada de um sinal seu resolveria todos os problemas. O que ainda sente, o que ainda te prende a mim? Por acaso não aprendeu a amá-la ainda, ou é só vaidade e egoísmo que te prendem a esse passado só nosso, impenetrável? O que te fez me procurar? Tanto tempo e nenhum sinal e agora...

Agora, todos os problemas misturados. Não fuja, criamos em conjunto.

Agora, habita uma aliança na minha mão direita.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Descoberta

E sabe qual foi o meu erro, todo o meu engano? Me deixar levar por esse sorriso tímido e besta, as mãos cobrindo uma parte do rosto enquanto falava qualquer coisa. Devia ser pra não levantar suspeitas.

Deixei. Deixei as noites, deixei boemia, deixei de ficar bêbada pelas madrugadas, de fumar um cigarro aqui e outro ali. Recusei convites irrecusáveis. Tudo o que me fazia eu, tudo o que era do meu gosto. Tantas mãos e camas que por uma noite iam me fazer completamente realizada, mesmo que no outro dia eu vestisse minhas roupas e tivesse de ir embora sem olhar pra trás.

E era tudo uma imunda máscara, não era? Uma máscara que só deixava de verdadeiro da tua face do lado de fora esses olhos de amêndoa que eu não cansava de olhar. E ficava hipinoticamente doente, então.

Ah, se eu soubesse. Se eu soubesse que eras essa medusa, não teria passado nem perto pra não correr o risco de sentir o cheiro da tua pele e querer provar.

Virei uma boneca de pedra, enfeitiçada. Por anos, escrava das tuas vontades, cachorra vadia e sem orgulho. Até descobrir uma a uma as flores que murchaste. E eu era uma entre elas, já quase sem vida.

Quer saber do que mais? Agora foda-se.

Cortei tua cabeça e matei as tuas cobras.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Amélia

Era perfeita, não tinha um defeito se quer, podia procurar. Que procurasse em todos os cantinhos, em cada característica.
Corpo perfeito, rosto lindo, voz de boneca, cabelos incríveis que, apesar dela não gostar dos pequenos cachos que formavam, não saiam do lugar.
Abdicava das amigas, dos amigos, da família.
Falava baixo, concordava com tudo, tinha sempre a opinião dele na boca, não importando quem fosse o ele da vez.
Cozinhava bem e colocava o almoço dele no prato sempre na hora certinha que ele havia estipulado para comer.
Limpava a casa, cuidava dos bichos, cuidava de tudo sem reclamar, cuidava de tudo como uma grega esperando o marido voltar da guerra.
Na cama, a preferência era o que ele quisesse que fosse. Se ele mandava, devia ser bom.
Tantos e tantos pretendentes na porta, tantos elogios, tantas propostas... Era perfeita, mas era mulher de um homem só.
(mesmo que ele já fosse casado).